O passinho miúdo, o dedo em riste e o olhar esperto, o bolo de revistas
debaixo do braço, uma paixão imensa por Bach e Vivaldi e uma cachoeira de
grandes idéias o tempo todo: eis o retrato frente e verso de uma das
maiores figuras do jornalismo brasileiro dos últimos 40 anos, Murilo
Agostini Felisberto, que morreu ontem, aos 67 anos, no Hospital Santa
Catarina, em São Paulo.
Um dos fundadores e depois diretor de Redação do Jornal da Tarde em duas
ocasiões - entre 1965 e 1978 e depois entre 2000 e 2003 -, Murilinho, como
o chamavam as dezenas de jornalistas que ele comandou.
Um tumor no fígado trouxe complicações que impediram qualquer cirurgia e
uma falência múltipla dos órgãos o levou.
'Ele esteve consciente o tempo todo, queria conversar e saber as fofocas do
dia. Ninguém esperava que se fosse tão depressa', diz sua filha, Carlota,
que o acompanhou a cada momento, nos últimos dez dias.
'Falei com ele há dez dias, de Nova York. Ele me pediu um montão de
revistas e só me disse, de passagem, que não estava se sentindo bem',
lembra Maria Ignez Whitaker, com quem ele esteve casado entre 1971 e 1978 -
mas da qual, na prática, não se afastou por todos esses anos. 'Nós nos
víamos muito, ele ia sempre a Nova York e meus outros cinco filhos o
adoravam como se fosse pai deles ', lembra Maria Ignez.
Uma semana atrás disse a um amigo: 'Rabininho, ligue para mim às vezes.
Ando meio sozinho...'
Mineiro de Lavras, onde se formou no colégio americano Gamon, Murilo se
consagrou bem cedo, em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro, como um
jornalista fora de série. A busca rigorosa do bom texto, a percepção rápida
de melhor notícia e a genialidade com que criava belíssimas páginas, tantas
vezes premiadas, deixaram fundas marcas na vida das maiores redações
brasileiras - o Diário de Minas e o Jornal do Brasil, no início, rápidas
passagens por Senhor, Realidade, Folha de S. Paulo e Manchete, até fincar
raízes no Jornal da Tarde, onde chegou em novembro de 1965 para ajudar Mino
Carta a fazer uma revolução no jornalismo. Ganhar prêmios ou participar de
júris eram sua rotina, naqueles idos entre 1970 e 1990.
'A pessoa mais importante da minha vida foi o Murilo, não só porque me
ensinou muito, como pelas oportunidades que me deu', diz seu antigo foca e
hoje consagrado escritor Fernando Morais. Além de Fernando, Murilinho foi
buscar em Minas, no início do JT, nomes como Fernando Mitre, Ivan Ângelo,
Flávio Márcio, Carmo Chagas, Moisés Rabinovici, entre outros.
'Ele era uma usina de idéias', resume um de seus melhores alunos, o diretor
de Jornalismo da TV Bandeirantes, Fernando Mitre. 'Tinha horror à grosseria
e à mediocridade', lembra-se Nirlando Beirão. 'Ele parecia esgueirar-se
pelas paredes do mundo, mas era efetivo e decisivo, sempre.' Sua capacidade
de virar uma idéia pelo avesso e sacar uma edição notável era quase rotina.
Talvez a única coisa que o encantasse mais era o gosto, quase obsessão, por
uma boa fofoca. Inevitavelmente, sua corte, pelas redações e restaurantes
paulistanos, acabou por apelidá-lo, carinhosamente, de 'Rainha'.
Sabia sempre quem estava namorando quem. Perder um amigo, mas não perder a
piada, era com ele - e ninguém jamais deixou de admirá-lo por isso. 'Sua
inteligência cortante e permanente ironia ocultavam uma enorme timidez',
define um de seus antigos aprendizes, Ricardo Setti. 'Aprendi com ele muito
do que coloquei em prática. Foi um grande jornalista, embora não tenha tido
o reconhecimento público que merecia', diz o ex-diretor do Estado Sandro
Vaia.
'Foi o responsável pela criação do jornal mais bonito graficamente feito no
Brasil: o Jornal da Tarde"
WASHINGTON OLIVETTO, W/BRASIL
' Devo o pouco que aprendi a ele, que me ensinou a importância do lide, da
elegância e do estilo do texto"
FERNANDO MORAIS, ESCRITOR E JORNALISTA
'Inspirava os que o cercavam até com atitudes como a sua paixão pela
música"
ROBERTO DUALIBI/DPZ
'Desenhou capas que entraram para a história do jornalismo brasileiro, como
a da menina vietnamita"
MIGUEL JORGE, MINISTRO DA INDÚSTRIA, COMÉRCIO E DESENVOLVIMENTO
'Trafegou pelo mundo com os passinhos miúdos de discreta, mas soberana
elegância. Raro talento"
NIRLANDO BEIRÃO, JORNALISTA E ESCRITOR
Texto: GABRIEL MANZANO FILHO, gabriel.manzanofilho@grupoestado.com.br
Foto: NORMA ALBANO A/E |