ANDARILHOS SUL MINEIROS
Amílcar de Castro, o gênio do instante

Foto: Portal Amilcar de Castro
CARLOS DRUMOND DE ANDRADE, mineiro de Itabira toda de ferro, onde as ferraduras batem como sinos nas calçadas com noventa por cento de ferro, achava que os itabiranos carregavam igualmente oitenta por cento de ferro nas almas.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
AMILCAR DE CASTRO, também mineiro, mas não de zona de mineração, pois nasceu em Paraisópolis, no sul de Minas , não parece ser interiormente de ferro como o poeta – que, de resto, não tinha tanto ferro na alma, como pensava.
Mas, se não é, como o itabirano, de ferro por dentro, nem por isso deixou de dialogar muito cedo com esse material, numa aproximação que não se fez, certamente, pelo que ele oferece de decorativo e de atraente, pois não é decorativo nem atraente.
Amilcar de Castro, porém, começou a usar o ferro desde as primeiras obras e parece não ter sentido, no decorrer do tempo, a tentação de substituí-lo por outro material mais nobre e mais agradável.
Em sua obra escultórica, a participação do ferro não é, por isso, de apenas noventa por cento como nas calçadas de Itabira, mas de cem por cento – ou quase.
Quem diz isto é João Guimarães Vieira em seu texto: Amílcar de Castro, escultura também é cosa mentale.
Nascido em Paraisópolis, em 1920, Amilcar Augusto Pereira de Castro chegou à Belo Horizonte em 1934 e formou-se em Direito pela então UMG, em 1945, quando já havia iniciado os cursos de Desenho e Pintura, com Alberto da Veiga Guignard e de Escultura Figurativa, com Franz Weissmann.
Em 1967, viajou para os Estados Unidos, de onde retornou em 1971, fixando-se em Belo Horizonte. Diretor da Fundação Escola Guignard de 1974 a 1977, professor de escultura na Fundação de Artes de Ouro Preto (Faop), em 1979 e de composição e escultura na EBA/UFMG de 1979 a 1990.
O artista mineiro, trabalhou na diagramação das revistas a Cigarra e Manchete, elaborou a reforma gráfica do Jornal do Brasil, do Minas Gerais e do Suplemento Literário de Minas Gerais. Criou logotipos, cartazes e outros impressos da reforma do Jornal de Resenhas, publicado pela Folha de S.Paulo. Elaborou como capista é capas para diversos livros, além da realização de pinturas originais de uma série de nove livros de Kafka.
Guignard e Amílcar - Na Escola de Belas Artes do Parque Municipal de Belo Horizonte ou na cervejaria Tip-Top, eu os via e ouvia, ainda menino, 20 anos, desde 1952, Guignard, com quase 60, os lábios cortados e a voz fanhosa, e Amílcar, já com mais de 30, olhos grandes, cabelos fartos e revoltos, em chopes e conversas intermináveis, tardes inteiras, falando sobre arte e vida e gente e mundo.
Professor e aluno - Pareciam duas crianças. Guignard, todo criança, ainda mais criança do que Amílcar, também alma de criança. Só depois que Benedito Coutinho me contou a conversa com Gustavo Capanema sobre "A Ceia" de Portinari fui entender como e por que os dois passavam tardes infinitas tomando chope e falando de arte e vida. Estavam esperando o instante chegar.
Amílcar de Castro, o escultor do instante
O jornalista Benedito Coutinho entrou no apartamento do senador Gustavo Capanema, na Rua Tamandaré, no Flamengo, entupido de livros, de alto a baixo. Na sala, o maravilhoso quadro de Portinari, "A Ceia". Benedito ficou olhando o Cristo, os apóstolos, um a um:
- Senador, esta Santa Ceia só tem onze apóstolos. É a primeira Ceia que vejo sem Judas.
- Pois é, Benedito. Exatamente aí está a originalidade deste quadro do Portinari. Ele pintou o instante. Pintou precisamente o instante em que, mal Judas se retirara, o Cristo disse aos onze apóstolos:
- Enfim, sós.
O pai, também Amílcar, nosso professor na Faculdade de Direito e presidente do Tribunal Eleitoral. Amílcar tinha abandonado a faculdade para buscar o instante. A partir de 52 veio para o Rio, mas sempre estava por lá.
Mergulhou fundo nos novos ventos que sopravam novos tempos nas artes, como o Movimento Concretista e o pioneiro Suplemento Dominical do Jornal do Brasil, criado por Reinaldo Jardim. E inventou o "L" dos anúncios da primeira página, a partir do qual criou e desenhou a reforma do jornal.
No fim de 65, vindo para o Rio depois da cassação e da cadeia, nos reencontramos no "Diário Carioca", dirigido pelo nobre e sábio Prudente de Morais, neto, também desenhando a primeira página, com a leveza e a beleza de seu traço. Só saía depois que o jornal fechava, a página enxuta, exata.
E iamos, com outros colegas, para o Real Astória, no Leblon, onde morávamos em prédios vizinhos, enxugar chopes e madrugadas. E ele contando a experiência de sua temporada de bolsista no Museu Guggenheim, nos Estados Unidos, e falando de arte. Sempre esperando o instante.
Depois, voltou para Minas, onde instalou, em Nova Lima, ao lado de Belo Horizonte.
22.11.2002 - Morreu mais um gênio do instante. Amílcar de Castro, o escultor do instante. O genial artista do instante da matéria, do ferro, do aço, do granito: "Chego e faço. Desenho na hora. Não há nada premeditado, porque não estou preso a coisa nenhuma. O desenho é meu alfabeto. Minha escultura é a maneira que encontrei de escrever no espaço" ("O Globo").
(Histórias contadas pelo Jornalista Sebastião Nery)
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